Açúcares raros como alternativa para a resiliência climática e funcionalidade no P&D

O mercado global de ingredientes está em meio a uma transição profunda. Após décadas de domínio do açúcar de cana (sacarose) e dos edulcorantes intensos de alta potência, a indústria volta sua atenção para os açúcares raros. Ingredientes como a alulose e a tagatose estão deixando de ser nichos de "baixa caloria" para se tornarem pilares de uma estratégia de resiliência climática e funcionalidade técnica que os adoçantes sintéticos nunca conseguiram preencher. Na economia, pesquisas da Grand View Research corroboram com a tendência do uso de açúcares raros: o mercado deve crescer cerca de 2,61 milhões de dólares até 2030.
O problema da dependência da sacarose em um clima instável
Uma das questões emblemáticas sobre o tema é que a produção de açúcar tradicional é altamente dependente de regiões geográficas específicas e de condições climáticas estáveis. Com o aumento de eventos extremos afetando as maiores safras de cana-de-açúcar do mundo, a volatilidade dos preços da sacarose tornou-se um risco financeiro constante para as indústrias de bebidas e alimentos.
É nesse cenário que os açúcares raros ganham força. Diferente da sacarose, que exige monoculturas extensivas, a alulose e a tagatose podem ser produzidas via bioconversão enzimática a partir de diversas fontes de carboidratos, incluindo resíduos de outras cadeias produtivas (como o amido de milho ou subprodutos de laticínios). Essa versatilidade de origem garante uma cadeia de suprimentos mais estável e menos vulnerável a quebras de safra locais, oferecendo uma blindagem econômica para o fabricante.
Alulose: o pilar da substituição do açúcar
A alulose é um monossacarídeo que ocorre naturalmente em quantidades ínfimas em frutas como figos e uvas passas. No entanto, sua produção em escala industrial através de enzimas imobilizadas mudou o jogo para o P&D. O grande diferencial da alulose não é apenas o fato de possuir cerca de 10% das calorias do açúcar, mas sua funcionalidade física: ela se comporta exatamente como o açúcar.
Diferente da estévia ou do aspartame, a alulose oferece volume, textura e, crucialmente, a capacidade de participar da Reação de Maillard. Isso significa que ela doura e carameliza em produtos forneados, mantendo a umidade e o "crumb" de bolos e biscoitos que os adoçantes de alta intensidade destroem. De acordo com análises técnicas, a Food and Drug Administration (FDA), manifestou a intenção de permitir a exclusão da alulose da declaração de "açúcares totais" e "açúcares adicionados" nos rótulos nutricionais nos EUA, fundamentando-se em evidências científicas sobre o metabolismo e a resposta glicêmica diferenciados deste ingrediente, o que justifica também o seu baixo valor calórico de 0,4 kcal/g.
Tagatose: potencial prebiótico e resiliência térmica
A tagatose, outro açúcar raro de destaque, oferece cerca de 90% da doçura da sacarose com apenas 38% das calorias. Sua vantagem competitiva reside no seu baixo índice glicêmico e em suas propriedades prebióticas, que auxiliam na saúde intestinal — uma demanda crescente do consumidor de 2026.
Do ponto de vista industrial, a tagatose é extremamente resistente a altas temperaturas, tornando-a ideal para processos de extrusão e cereais matinais. A capacidade de produzir tagatose a partir da lactose (subproduto da indústria de queijos) via processos enzimáticos é um exemplo perfeito de economia circular que reduz o impacto ambiental da cadeia de suprimentos láctea, transformando um resíduo em um ingrediente de alto valor agregado.
Otimização de custos e estratégia de mercado
Embora o custo por quilo dos açúcares raros ainda seja superior ao da sacarose, a análise de custo-benefício em 2026 leva em conta o custo total da formulação. Ao utilizar alulose ou tagatose, o formulador elimina a necessidade de "agentes de corpo" caros (como polidextrose ou fibras sintéticas) que seriam necessários para compensar a perda de massa ao usar um adoçante intenso.
Além disso, a redução da pegada de carbono é significativa. A produção de açúcares raros via fermentação de precisão ou bioconversão enzimática utiliza, em média, menos água e solo do que a produção tradicional de cana-de-açúcar. Empresas que adotam esses ingredientes estão se posicionando não apenas como marcas "saudáveis", mas como empresas resilientes às crises climáticas que estão redesenhando o mapa global de commodities.
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